Durante a FLIPES, visitantes poderão conhecer uma gastronomia que aproxima receitas caipiras, pequenos produtores e cultivos de altitude
Quem visitar São Bento do Sapucaí durante a 14ª Festa Literária do Interior Paulista Eugênia Sereno (FLIPES), realizada de 13 a 19 de setembro de 2026, encontrará uma experiência que continua para além dos livros, das conversas e dos espetáculos. Na cidade da Serra da Mantiqueira, a gastronomia também conta histórias: preserva receitas familiares, acompanha o ritmo das colheitas e transforma ingredientes locais em fonte de renda, identidade e permanência no campo.
À tradição do fogão a lenha juntaram-se olivais, vinhedos, queijarias, pomares de frutas vermelhas, cultivos de cogumelos e uma produção artesanal de cervejas, geleias, embutidos e outros alimentos. O resultado é uma cozinha que se move entre a memória rural e as criações contemporâneas, sem perder a relação com o território.
Essa tradição permanece em estabelecimentos familiares, entre eles o Lá na Roça, criado na residência dos proprietários, no bairro do Serrano, e o Restaurante Pedra do Baú, localizado na área rural. Os cardápios ajudam a preservar técnicas domésticas e uma forma de receber associada às refeições demoradas, servidas em panelas dispostas sobre a lenha. A truta, frequente nas mesas da Mantiqueira, também aparece em diferentes preparos nos restaurantes da cidade.
É o caso da Comedoria Literária, que reúne gastronomia, literatura, patrimônio histórico e desenvolvimento comunitário em um único espaço. Instalada no centenário Casarão da Memória, ao lado da Igreja Matriz, a iniciativa funciona como restaurante, biblioteca comunitária, espaço cultural e ponto de encontro para moradores e visitantes.
Sob a gestão da educadora e gestora cultural Vanderléia Barboza, o projeto fortalece a economia criativa da Serra da Mantiqueira ao valorizar produtores locais, incentivar a circulação de artistas e promover uma gastronomia afetiva assinada pela chef Ariadine Rumiê. O cardápio, elaborado com ingredientes da região e receitas exclusivas, tem como um de seus destaques a Tilápia na Mantiqueira, prato que se tornou símbolo da casa e ganhou reconhecimento em festivais gastronômicos, aproximando cultura, memória e sustentabilidade em uma experiência que alimenta tanto o corpo quanto a imaginação. A programação do local do espaço inclui saraus, lançamentos de livros, shows, contação de histórias e exposições.
Os vinhos locais também merecem a atenção dos turistas que virão à cidade para a FLIPES. A Villa Santa Maria produz os rótulos Brandina e mantém uma experiência que combina vinhedos, cave, degustação e gastronomia. Já a Raízes do Baú, instalada a cerca de 1.250 metros de altitude, trabalha com vinhos de inverno obtidos pela técnica da dupla poda, além de colheitas tradicionais de verão. As duas propriedades integram o circuito de enoturismo da Mantiqueira.
Outra experiência ligada ao campo está no Entre Vilas e no Viveiro Frutopia. A propriedade recuperou o cultivo regional da framboesa e hoje mantém variedades de amoras, mirtilos e outras frutas, além de parreiras e uma das plantações de lúpulo existentes no país. Parte da produção chega ao restaurante, que segue uma proposta de refeições sazonais e sem pressa. Segundo o portal Turismo Paulista, o local produz cerca de cinco toneladas de frutas vermelhas por ano e mantém dezenas de variedades de framboesa.
A diversidade inclui ainda os cogumelos cultivados naturalmente pela Quinta dos Cogumelos. E a Fazenda Oliq Produtores de Azeite, parceira da FLIPES. A Oliq nasceu na Mantiqueira com o pioneirismo de trazer o primeiro plantio comercial de oliveiras na região. Desde então, a fazenda seguiu seu próprio ritmo de expansão. A cada ciclo, novos produtos surgiram: sorvetes, cosméticos, café e conservas que sempre dialogam com a terra e com o que ela oferece.
O cultivo da oliveira reuniu três amigos para criar a Oliq. Cristina Gonçalves Vicentin e o casal Vera Masagão Ribeiro e Antônio Gomes Batista trocaram a vida acadêmica pela lida na roça, movidos pelo desejo de uma vida diferente. Doutores em educação e psicologia, não tinham experiência em agricultura ou azeite. Foi Cristina quem deu o primeiro passo, em 2003, ao plantar oliveiras na fazenda herdada de seu avô, diante da Pedra do Baú. A iniciativa resgata uma tradição esquecida: entre 1940 e 1970, a Mantiqueira chegou a ser conhecida como a Capital das Oliveiras.
A presença desses produtores também influencia restaurantes e cozinheiros. Azeites locais, frutas recém-colhidas, queijos maturados, embutidos e vinhos da Mantiqueira passaram a aparecer em cardápios que reinterpretam a culinária regional. A cidade reúne desde refeições servidas diretamente no fogão a lenha até menus sazonais, harmonizações e experiências *farm-to-table*.
Durante a FLIPES, a gastronomia amplia o contato dos visitantes com São Bento do Sapucaí. Entre uma atividade literária e outra, conhecer os restaurantes, empórios e propriedades rurais significa também entrar em contato com famílias, cultivos e saberes que participam da formação cultural do município.
No último dia da Festa, não deixem de visitar a Mostra Mesa Ancestral – um projeto do Casarão da Memória que une a cultura da gastronomia regional à pesquisa das origens dos pratos mais consumidos no interior paulista. Pautada pelo uso de ingredientes locais e sazonais, com o aproveitamento integral dos alimentos e a valorização da identidade dos pratos, na Mostra, as cozinheiras de São Bento do Sapucaí apresentarão uma degustação de receitas da Mantiqueira no dia 19 de setembro, sábado, às 11h.